sábado, 24 de outubro de 2026
SAÚDE

Como a tecnologia pode ajudar nos cuidados com a saúde no Paraná

No Paraná, ferramentas digitais já são usadas para emitir laudos a distância, integrar informações clínicas, acompanhar vacinas e apoiar decisões na rede pública de saúde. Especialistas, porém, alertam que a tecnologia não substitui a avaliação de profissionais nem resolve sozinha problemas de acesso e estrutura.

A tecnologia nos cuidados com a saúde no Paraná já faz parte da rotina de unidades básicas, hospitais, laboratórios e pacientes. Ferramentas digitais são usadas para transmitir exames, emitir laudos a distância, organizar informações clínicas, apoiar profissionais e facilitar o acompanhamento de vacinas, medicamentos e atendimentos.

O objetivo não é substituir médicos, enfermeiros ou outros profissionais, mas ampliar a capacidade de atendimento e reduzir barreiras, especialmente para quem vive em municípios distantes dos grandes centros. No Estado, a estratégia de Telessaúde conecta serviços municipais a especialistas e permite que parte da avaliação seja realizada sem que o paciente precise viajar para outra cidade. (saude.pr.gov.br)

Esse processo também está relacionado à transformação digital do Sistema Único de Saúde (SUS), que busca integrar dados, melhorar a continuidade do cuidado e tornar a gestão mais orientada por evidências. Para a população, os benefícios podem aparecer desde a consulta ao histórico de vacinação até a realização de exames com apoio remoto.

Telessaúde reduz distâncias entre pacientes e especialistas

Uma das aplicações mais visíveis da tecnologia na saúde paranaense é a Telessaúde. O serviço permite que exames feitos em uma unidade de saúde sejam enviados pela internet para análise de profissionais especializados. Depois da avaliação, o laudo retorna à equipe que acompanha o paciente.

No Paraná, a Secretaria de Estado da Saúde informa que a estratégia inclui telediagnósticos em áreas como eletrocardiograma, dermatologia e hanseníase. Também há teleconsultorias voltadas a temas como transtorno do espectro autista, genética médica e amamentação, com o objetivo de apoiar os profissionais da rede em casos clínicos e decisões de cuidado. (saude.pr.gov.br)

Na prática, um eletrocardiograma realizado em uma unidade básica pode ser analisado por um especialista sem a necessidade de deslocamento imediato do paciente. Em situações dermatológicas, imagens e informações clínicas podem ser encaminhadas para avaliação técnica. A ferramenta não elimina a necessidade de atendimento presencial quando ele é indicado, mas pode ajudar a definir a prioridade e o encaminhamento adequado.

Segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde, o Tele-ECG alcançou 170.331 atendimentos em 2025. A rede contava, em junho de 2026, com 183 municípios participantes e 366 serviços de saúde vinculados à estratégia. Desde 2021, foram emitidos 384.404 laudos, de acordo com o órgão estadual. (saude.pr.gov.br)

Os números mostram como a tecnologia pode ser especialmente relevante em um Estado com municípios de diferentes tamanhos e distâncias. A emissão remota de laudos pode reduzir viagens, acelerar a resposta clínica e fortalecer o papel da atenção primária, que é a principal porta de entrada do SUS.

Prontuário eletrônico ajuda a preservar o histórico do paciente

Outra contribuição importante é a digitalização dos registros de saúde. Prontuários eletrônicos permitem reunir informações como consultas, exames, diagnósticos, medicamentos prescritos e vacinas em sistemas que podem ser acessados por profissionais autorizados.

Quando os dados são integrados, o paciente não precisa repetir todas as informações a cada atendimento. O profissional também pode ter uma visão mais ampla do histórico clínico, o que favorece decisões mais seguras e reduz o risco de perda de documentos ou resultados.

No Paraná, a plataforma Paraná Saúde Digital foi criada para reunir dados da atenção primária e apoiar a gestão municipal. A ferramenta utiliza informações de sistemas estaduais, prontuários eletrônicos dos municípios e bases do Ministério da Saúde. A Secretaria de Estado da Saúde afirma que a plataforma também pode apoiar análises e decisões relacionadas à organização dos serviços. (saude.pr.gov.br)

Esse tipo de integração pode ajudar a identificar demandas mais frequentes, acompanhar indicadores e direcionar recursos. Também permite observar, com maior rapidez, onde há aumento de casos, necessidade de exames ou pressão sobre determinados serviços.

Para o cidadão, porém, a existência de um sistema digital não significa que todos os dados estejam disponíveis automaticamente em qualquer unidade. O acesso depende da integração entre plataformas, da atualização dos registros, da infraestrutura local e das regras de segurança e autorização.

Meu SUS Digital facilita o acompanhamento da saúde

O Meu SUS Digital é uma das principais ferramentas federais disponíveis para o cidadão acompanhar informações relacionadas ao SUS. O aplicativo e a versão web permitem consultar dados de saúde disponíveis na Rede Nacional de Dados em Saúde, incluindo histórico de vacinação, resultados de exames, medicamentos dispensados e outros registros, conforme a disponibilidade das informações. (gov.br)

A carteira de vacinação digital é uma das funções mais conhecidas. O usuário também pode acessar documentos, verificar registros e acompanhar informações relacionadas ao atendimento. A plataforma utiliza autenticação do sistema Gov.br e pode ser acessada por computador ou por dispositivos móveis.

O aplicativo não substitui a consulta médica nem funciona como ferramenta para confirmar doenças. Sua principal utilidade é organizar informações e facilitar o acesso do usuário ao próprio histórico, o que pode ser útil antes de uma consulta, em atendimentos de urgência ou durante o acompanhamento de tratamentos.

Para que o recurso funcione de maneira adequada, é importante manter os dados cadastrais atualizados e verificar se as informações exibidas correspondem aos registros existentes nos serviços de saúde. Em caso de divergência, o usuário deve procurar os canais oficiais de atendimento ou a unidade responsável pelo registro.

Aplicativos e dispositivos ajudam no autocuidado

Celulares, relógios inteligentes e outros dispositivos também podem apoiar o autocuidado. Aplicativos de atividade física, lembretes de medicamentos, registros de pressão arterial e diários de sintomas ajudam algumas pessoas a organizar a rotina e observar mudanças ao longo do tempo.

Esses recursos podem ser úteis para quem precisa controlar doenças crônicas, acompanhar hábitos ou levar informações para uma consulta. Um registro organizado pode ajudar o profissional a compreender a frequência de determinados sintomas, a adesão ao tratamento ou a relação entre rotina, alimentação, sono e bem-estar.

O uso, no entanto, deve ser interpretado com cautela. Dados de relógios, pulseiras e anéis inteligentes não equivalem automaticamente a exames clínicos. Em agosto de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária alertou que anéis inteligentes não devem ser usados para diagnosticar doenças e que dispositivos não regularizados podem fornecer medições inadequadas. (gov.br)

A recomendação é utilizar esses equipamentos como instrumentos de acompanhamento, e não como substitutos de avaliação profissional. Uma alteração observada em um aplicativo pode justificar a busca por atendimento, mas não permite, sozinha, confirmar uma doença ou alterar medicamentos.

Inteligência artificial apoia análise e gestão

A inteligência artificial também começa a ser incorporada à saúde para organizar grandes volumes de dados, identificar padrões e apoiar atividades de gestão e assistência. No setor público, essas ferramentas podem contribuir para analisar filas, monitorar indicadores, organizar leitos e acompanhar a distribuição de serviços.

No Paraná, a Secretaria de Estado da Saúde informa que soluções digitais e ferramentas de inteligência artificial são usadas na plataforma Paraná Saúde Digital para reunir informações da atenção primária e apoiar a tomada de decisões. A tecnologia, nesse caso, funciona como suporte para equipes e gestores, que continuam responsáveis pela avaliação dos dados e pelas decisões administrativas e clínicas. (saude.pr.gov.br)

Na assistência, sistemas automatizados podem auxiliar na triagem de informações, na identificação de situações que exigem atenção e na organização de fluxos. O resultado depende da qualidade dos dados utilizados, da supervisão de profissionais e da capacidade de explicar como a ferramenta chegou a determinada indicação.

Por isso, o uso de inteligência artificial precisa seguir critérios de segurança, transparência, proteção de dados e responsabilidade profissional. Uma ferramenta pode apoiar uma decisão, mas não deve ser tratada como autoridade isolada em situações que exigem avaliação clínica.

Benefícios dependem de infraestrutura e inclusão digital

Embora a tecnologia possa ampliar o acesso, seus benefícios não são distribuídos automaticamente. Internet instável, falta de equipamentos, dificuldade de uso, baixa qualidade dos registros e ausência de profissionais capacitados podem limitar os resultados.

Também é necessário considerar pessoas idosas, moradores de áreas rurais, cidadãos com deficiência e famílias que não têm celular ou conexão adequada. Serviços digitais devem conviver com canais presenciais e telefônicos para evitar que a digitalização se transforme em uma nova barreira de acesso.

O próprio Programa SUS Digital prevê ações relacionadas ao uso apropriado, ético e crítico das tecnologias, além de iniciativas de formação e proteção de dados pessoais. A proposta inclui ampliar o acesso sem abandonar a segurança e a qualidade do atendimento. (webatendimento.saude.gov.br)

No Paraná, a expansão da Telessaúde depende da participação dos municípios, da conectividade das unidades e da organização dos fluxos de atendimento. A Secretaria de Estado da Saúde anunciou investimento de R$ 10 milhões no Sistema de Telemedicina e Telessaúde para ampliar a infraestrutura tecnológica no Estado. (saude.pr.gov.br)

Como usar a tecnologia com segurança

Para o paciente, algumas medidas ajudam a utilizar recursos digitais de forma mais segura:

  • priorizar aplicativos e páginas oficiais de órgãos públicos, hospitais e instituições reconhecidas;
  • não interromper ou alterar medicamentos com base apenas em informações de aplicativos ou dispositivos;
  • levar registros digitais, resultados e dúvidas para a consulta com um profissional;
  • verificar se equipamentos de medição têm finalidade adequada e regularização quando aplicável;
  • proteger senhas, códigos de acesso e informações pessoais;
  • desconfiar de promessas de diagnóstico instantâneo ou cura garantida;
  • buscar atendimento presencial ou de urgência quando houver sinais de gravidade.

A tecnologia pode ajudar a organizar o cuidado, aproximar especialistas, acelerar diagnósticos e melhorar a gestão da saúde pública. No Paraná, iniciativas de Telessaúde e integração de dados mostram que esse processo já está em andamento. O resultado, porém, depende de uma combinação entre inovação, infraestrutura, qualificação profissional, proteção de dados e atendimento humanizado.

Para o cidadão, a principal vantagem está em ter mais informação e acesso a serviços. Para a rede de saúde, está na possibilidade de trabalhar com dados mais organizados e reduzir deslocamentos desnecessários. Em ambos os casos, a tecnologia funciona melhor quando é usada como ferramenta de apoio — e não como substituta do cuidado profissional.