A corrida de montanha no Paraná vem conquistando espaço entre praticantes que procuram uma alternativa às provas tradicionais de rua. Em vez do asfalto e dos percursos predominantemente planos, o trail running combina trilhas, subidas, descidas, terrenos irregulares e mudanças de clima.
O crescimento do interesse acompanha a maior procura por áreas naturais no Estado. Levantamento do Instituto Água e Terra (IAT) aponta que os parques estaduais de montanha receberam 122.847 visitantes em 2025, contra 63.423 em 2021 — aumento de 93,7% em cinco anos. O dado se refere ao montanhismo e à visitação dessas unidades de conservação, não exclusivamente a corredores, mas indica a expansão do público interessado em atividades esportivas e de lazer na natureza. (sedest.pr.gov.br)
Os principais pontos de atração estão na Serra do Mar, especialmente nos parques estaduais Serra da Baitaca, Pico do Marumbi e Pico Paraná. Juntos, eles reúnem trilhas, cumes, áreas de altitude e percursos que passaram a fazer parte da rotina de grupos de corrida, assessorias esportivas e organizadores de provas.
O que caracteriza a corrida de montanha
A corrida de montanha faz parte de um conjunto mais amplo de modalidades conhecido como corrida em trilha ou trail running. De acordo com as normas da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), as provas são realizadas principalmente fora de estradas pavimentadas, em ambientes naturais como montanhas, florestas, áreas rurais e caminhos de terra.
As regras permitem que uma pequena parte do percurso seja feita em superfícies pavimentadas, mas o trajeto deve ser predominantemente off-road. Não existe uma distância única para esse tipo de competição. Há provas curtas, destinadas a iniciantes, e percursos de dezenas de quilômetros, que exigem experiência, estratégia de hidratação e capacidade para enfrentar diferentes condições de terreno. (competicoes.cbat.org.br)
Na prática, a principal diferença em relação à corrida de rua está na variedade do percurso. O atleta precisa lidar com pedras, raízes, lama, trechos estreitos, inclinações acentuadas e descidas técnicas. Em muitos casos, caminhar em partes mais íngremes faz parte da estratégia da prova. O objetivo não é manter o mesmo ritmo do asfalto, mas administrar o esforço conforme a altimetria e as condições do caminho.
Parques do Paraná concentram procura
O Parque Estadual Serra da Baitaca foi o local que registrou o maior aumento de visitantes entre os parques de montanha monitorados pelo IAT. O número passou de 42.208 pessoas em 2021 para 88.209 em 2025, alta de 109%. No mesmo período, o Parque Estadual Pico Paraná passou de 8.304 para 15.056 visitantes, enquanto o Parque Estadual Pico do Marumbi subiu de 12.911 para 19.582.
O IAT relaciona o crescimento a três fatores principais: a expansão de atividades esportivas, como corridas de aventura e montanhismo; a proximidade desses parques com a Região Metropolitana de Curitiba; e melhorias na infraestrutura das unidades de conservação. (sedest.pr.gov.br)
Os números ajudam a explicar por que a região se tornou um dos principais polos do trail running no Sul do país. A facilidade de acesso a áreas de montanha permite que corredores façam treinos de um dia, participem de eventos organizados ou iniciem a prática em percursos de menor dificuldade antes de avançar para trilhas mais longas e técnicas.
O Pico Paraná, localizado entre Campina Grande do Sul e Antonina, é um dos símbolos desse cenário. Com 1.877 metros de altitude, é o ponto culminante do Sul do Brasil. O parque também reúne trilhas de diferentes níveis de exigência e ambientes sujeitos a mudanças rápidas de temperatura, chuva, vento e visibilidade. (iat.pr.gov.br)
Calendário amplia opções para os atletas
A consolidação da modalidade também aparece no calendário esportivo. A Federação de Atletismo do Paraná mantém registros de competições de trilha e montanha, incluindo o Campeonato Brasileiro de Trilha e Montanha previsto para Quatro Barras. A presença de eventos oficiais ajuda a aproximar a prática do sistema tradicional do atletismo e oferece referências para organizadores e participantes. (atletismoparana.org.br)
Além das competições chanceladas por entidades esportivas, o Estado recebe eventos independentes em cidades da Região Metropolitana de Curitiba e em áreas rurais. Provas como a Discover Trail, realizada em Campo Largo, reúnem diferentes distâncias e níveis de dificuldade, permitindo a participação de corredores com experiências variadas. (roadrunners.run)
O calendário não se limita à Grande Curitiba. Municípios do litoral e do interior também passaram a utilizar trilhas, estradas rurais e áreas naturais como cenário para provas. Em Antonina, a realização de competições de cross country foi associada ao fortalecimento do turismo esportivo e à valorização dos atrativos naturais do município. (litoralsulfm.com.br)
Para quem está acostumado à corrida de rua, essa diversidade pode funcionar como porta de entrada. Provas de cinco a dez quilômetros, em terrenos de menor dificuldade, permitem que o participante conheça a modalidade sem começar por grandes altimetrias ou distâncias de ultramaratona.
Mais do que velocidade, modalidade exige adaptação
Na corrida de montanha, o treinamento precisa considerar fatores que não aparecem nos percursos urbanos. Fortalecimento muscular, equilíbrio, mobilidade e capacidade de controlar o ritmo em subidas e descidas são componentes importantes da preparação.
Também é necessário desenvolver percepção do terreno. Uma trilha pode apresentar obstáculos naturais, mudanças de aderência e passagens estreitas. O atleta precisa observar onde pisa, respeitar o espaço dos demais participantes e estar preparado para reduzir a velocidade ou caminhar quando as condições exigirem.
A escolha dos equipamentos varia conforme a distância, o clima e a organização da prova. Tênis com solado apropriado, mochila ou cinto de hidratação, roupa para mudança de temperatura e lanterna podem ser necessários. Em algumas competições, a organização estabelece itens obrigatórios, especialmente em percursos longos ou isolados.
As regras da World Athletics e da CBAt determinam que os organizadores informem previamente características técnicas como distância, ganho e perda de elevação, dificuldades principais, mapa, postos de controle, atendimento médico, equipamentos recomendados e procedimentos de segurança. (competicoes.cbat.org.br)
Segurança começa antes da largada
O aumento do número de visitantes também eleva a responsabilidade de atletas, organizadores e órgãos públicos. Em áreas de montanha, uma atividade aparentemente simples pode se tornar arriscada quando há falta de preparo físico, desconhecimento do trajeto ou mudança repentina no tempo.
O IAT recomenda que os visitantes consultem as regras de cada unidade de conservação, preencham o cadastro obrigatório quando exigido, informem contatos de emergência e levem água, alimentação e equipamentos adequados. O órgão também orienta que pessoas sem experiência procurem apoio de montanhistas ou condutores credenciados.
No Parque Estadual Pico Paraná, as recomendações incluem manter-se na trilha principal, respeitar as marcações, evitar deslocamentos noturnos e voltar pelo caminho conhecido quando houver dúvida sobre a direção. O instituto alerta ainda para a possibilidade de chuva repentina, queda de temperatura, baixa visibilidade, insolação e hipotermia. (iat.pr.gov.br)
Em abril de 2026, o IAT informou que a temporada de montanhas no Paraná costuma registrar aumento da visitação durante os meses mais frios e secos. Em um exemplo citado pelo órgão, o movimento no Pico Paraná passou de 346 visitantes em janeiro para 2.356 em maio do ano anterior. A alta sazonal reforça a necessidade de planejar a atividade com antecedência e verificar as condições de acesso. (iat.pr.gov.br)
Preservação acompanha expansão da prática
A popularização do trail running ocorre em ambientes sensíveis, onde o pisoteio fora das trilhas, a abertura de atalhos e o descarte de resíduos podem causar erosão e prejudicar a vegetação. Nos campos de altitude, o impacto pode ser ainda mais relevante porque se trata de um ecossistema associado à Mata Atlântica e concentrado nos pontos mais elevados das montanhas.
O IAT recomenda que os visitantes permaneçam nos caminhos demarcados, evitem áreas frágeis, não abram clareiras e levem de volta todo o lixo produzido. Em dias chuvosos, a orientação é redobrar a atenção ou adiar a visita, pois o solo fica mais suscetível à erosão e o risco de acidentes aumenta. (iat.pr.gov.br)
Documentos de planejamento do Parque Estadual Pico Paraná também registram que a popularização das corridas em trilha pode levar ao aumento de corredores sem preparo e à abertura de novos caminhos. O desafio, portanto, é conciliar o crescimento do esporte com o controle da visitação e a conservação das áreas naturais. (iat.pr.gov.br)
Modalidade deve continuar em expansão
A corrida de montanha no Paraná reúne fatores que favorecem sua expansão: uma rede de parques com diferentes características, proximidade de grandes centros urbanos, calendário crescente de eventos e interesse por atividades ao ar livre. O avanço da visitação mostra que há público para experiências esportivas ligadas à natureza.
O crescimento, porém, não deve ser medido apenas pelo número de provas ou participantes. A consolidação da modalidade depende de percursos bem planejados, atendimento adequado, informação sobre riscos, respeito às regras das unidades de conservação e compromisso dos atletas com a preservação.
Para os iniciantes, a recomendação é começar por distâncias curtas, buscar orientação profissional, conhecer previamente o terreno e não confundir a paisagem natural com ausência de risco. Para organizadores e autoridades, o aumento do interesse exige estrutura compatível com o fluxo de visitantes e mecanismos de monitoramento capazes de proteger tanto os corredores quanto as montanhas paranaenses.


