sábado, 24 de outubro de 2026
Dia a Dia

Hortas comunitárias no Paraná aproximam moradores da natureza e fortalecem comunidades

Hortas comunitárias no Paraná transformam terrenos urbanos em espaços de cultivo, convivência e educação ambiental. Projetos em cidades como Curitiba, Londrina, Maringá e Foz do Iguaçu mostram como a agricultura urbana pode contribuir para a segurança alimentar, a sustentabilidade e a integração entre moradores.

As hortas comunitárias no Paraná vêm transformando terrenos ociosos, áreas públicas e faixas urbanas em espaços de cultivo, convivência e contato com a natureza. Em diferentes municípios, os projetos reúnem moradores para plantar hortaliças, ervas, frutas e flores, além de promover ações de educação ambiental, segurança alimentar e geração de renda.

Mais do que produzir alimentos, essas iniciativas criam uma rotina coletiva. O preparo dos canteiros, a compostagem, o plantio e a divisão da colheita aproximam pessoas que muitas vezes vivem no mesmo bairro, mas tinham pouco contato. A horta passa a funcionar como ponto de encontro e como espaço de aprendizagem sobre o ciclo dos alimentos.

O movimento faz parte de políticas de agricultura urbana desenvolvidas por prefeituras, órgãos estaduais, empresas públicas e organizações comunitárias. No Paraná, experiências em cidades como Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Foz do Iguaçu e Campo Largo mostram que os formatos podem variar, mas mantêm um objetivo comum: aproximar a produção de alimentos da população e melhorar o uso dos espaços urbanos.

Espaços ociosos ganham nova função

Uma das principais características das hortas comunitárias é a ocupação organizada de áreas que antes permaneciam sem uso ou eram destinadas ao descarte irregular de resíduos. Com a implantação dos canteiros, esses locais passam a receber cuidados frequentes, circulação de moradores e atividades planejadas.

O programa Cultivar Energia, da Copel, é um dos exemplos paranaenses. A iniciativa utiliza terrenos localizados sob linhas de alta tensão para a implantação de hortas comunitárias em parceria com prefeituras. Segundo o Governo do Paraná, o programa tinha 24 unidades em dez municípios e envolvia cerca de 650 famílias, conforme dados divulgados em janeiro de 2025. A produção é destinada ao consumo das famílias e, em alguns casos, à comercialização. (aen.pr.gov.br)

Nesse modelo, a Copel cede o uso do espaço, realiza serviços como limpeza e instalação de cercas e fornece orientações relacionadas à segurança. As prefeituras participantes ficam responsáveis pela assistência técnica para a agricultura urbana. As regras incluem cuidados específicos para o trabalho sob as linhas de energia, como evitar atividades em dias chuvosos e respeitar limites para a altura das plantas. (aen.pr.gov.br)

A utilização dessas áreas exige planejamento e acompanhamento técnico. Não se trata apenas de plantar em qualquer terreno: é necessário avaliar a segurança do local, a qualidade do solo, a disponibilidade de água, a circulação de pessoas e as regras de uso da área. Quando esses fatores são considerados, o espaço pode cumprir uma função social e ambiental sem comprometer a infraestrutura existente.

Convivência e fortalecimento dos vínculos

O trabalho coletivo é um dos aspectos mais valorizados pelos participantes. A manutenção dos canteiros depende de uma divisão de tarefas, de reuniões e de acordos sobre o uso da terra e a distribuição da produção. Essa dinâmica favorece a troca de experiências entre moradores de diferentes idades e trajetórias.

Em depoimentos reunidos pelo Governo do Paraná sobre o programa Cultivar Energia, participantes relatam que a rotina na horta contribui para o contato com a natureza, a convivência no bairro e a sensação de bem-estar. Atividades como a produção de adubo orgânico por meio da compostagem também ampliam o conhecimento dos moradores sobre práticas sustentáveis. (aen.pr.gov.br)

Em Campo Largo, uma iniciativa implantada pelo IDR-Paraná em 2026 beneficiou 13 mulheres agricultoras por meio do projeto Nossa Gente Paraná Renda Agricultor. O programa combinou apoio financeiro, orientação técnica e capacitação em agroecologia, produção de mudas e adubação orgânica. A proposta foi voltada à segurança alimentar, à geração de renda e ao fortalecimento da autonomia das participantes. (agricultura.pr.gov.br)

O projeto de Campo Largo também incluiu rodas de conversa e momentos de escuta antes do início das atividades práticas. A estratégia buscou fortalecer vínculos, criar redes de apoio e estimular a participação das mulheres na comunidade. A experiência mostra que a horta pode ser utilizada como ferramenta de inclusão produtiva e de convivência, especialmente em grupos em situação de vulnerabilidade social. (agricultura.pr.gov.br)

Alimentos frescos e segurança alimentar

A produção local é outro benefício associado às hortas comunitárias. O cultivo de verduras, legumes, temperos e frutas pode complementar a alimentação das famílias e reduzir a distância entre o produtor e o consumidor. Em alguns projetos, o excedente é compartilhado entre os participantes ou vendido na própria comunidade.

Em Campo Largo, a produção das hortas implantadas pelo projeto estadual foi planejada principalmente para o consumo das famílias. O excedente poderá ser comercializado na vizinhança e em mercados locais, criando uma possibilidade adicional de renda. (agricultura.pr.gov.br)

Os resultados, no entanto, dependem da continuidade do manejo, da qualidade dos insumos, do acesso à água e da organização dos participantes. A presença de assistência técnica ajuda a orientar o preparo do solo, a escolha das espécies, o controle de pragas e as práticas de adubação. Também é importante que a comunidade defina regras claras para a divisão das tarefas e dos alimentos.

O cultivo sem agrotóxicos é uma característica destacada no programa Cultivar Energia. A proposta adota práticas agroecológicas e proíbe o uso de agrotóxicos nas áreas participantes, de acordo com a página de Agricultura Urbana do Governo do Paraná. (conexaoambiental.pr.gov.br)

Experiências em Curitiba e Londrina

Curitiba e Londrina estão entre os municípios paranaenses com programas estruturados de agricultura urbana. Em Curitiba, a política municipal inclui hortas comunitárias, institucionais e escolares. A página do Governo do Paraná informa que a capital contava com 27 hortas comunitárias, 19 institucionais e 22 escolares no momento da publicação consultada. (conexaoambiental.pr.gov.br)

Na cidade, os espaços produtivos são destinados a famílias responsáveis pelo cuidado dos canteiros. O atendimento prioriza famílias cadastradas em Centros de Referência de Assistência Social, embora também haja possibilidade de participação por meio das organizações responsáveis pelas hortas. (conexaoambiental.pr.gov.br)

Em Londrina, o programa de hortas comunitárias foi criado em 2010 pela Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento. A política local prevê a implantação de hortas em espaços ociosos, com o objetivo de estimular a produção de alimentos saudáveis pelos próprios participantes. O programa também busca melhorar o ambiente urbano, incentivar a organização popular e, em alguns casos, contribuir para a geração de renda. (conexaoambiental.pr.gov.br)

A legislação municipal de Londrina instituiu a Política de Agricultura Urbana e criou o programa Agriurbana. De acordo com a Prefeitura, grupos interessados em implantar uma horta precisam apresentar um projeto à Diretoria de Comercialização, que será analisado pelo comitê gestor. A orientação demonstra que a criação de uma horta comunitária exige planejamento formal e articulação com o poder público. (portal.londrina.pr.gov.br)

Educação ambiental na prática

O contato direto com a terra ajuda a tornar concretos temas que muitas vezes aparecem apenas em campanhas educativas. Compostagem, reaproveitamento de resíduos orgânicos, economia de água, preservação do solo e escolha de espécies podem ser trabalhados diariamente nos canteiros.

Esse aprendizado também alcança crianças e jovens quando as hortas estão ligadas a escolas ou instituições sociais. O acompanhamento do crescimento das plantas permite compreender o tempo da produção, a influência do clima e a importância dos cuidados permanentes. A experiência ainda pode estimular hábitos alimentares mais variados e a valorização dos alimentos frescos.

As hortas também ajudam a aproximar os moradores dos ciclos naturais. Em vez de enxergar o alimento apenas como um produto disponível nas prateleiras, os participantes acompanham o preparo da terra, a germinação, o desenvolvimento das plantas e a colheita. Essa mudança de perspectiva reforça a relação entre alimentação, meio ambiente e trabalho.

Desafios para manter os projetos

A implantação de uma horta comunitária é apenas o primeiro passo. A continuidade depende da participação dos moradores, da disponibilidade de água, do acesso a ferramentas e sementes e da manutenção dos espaços. Sem uma rotina organizada, os canteiros podem perder produtividade e deixar de cumprir a função social prevista.

Outro desafio é garantir que o uso dos terrenos tenha regras claras e estabilidade. Áreas urbanas podem mudar de finalidade, passar por obras ou ser destinadas a outros projetos. Por isso, parcerias institucionais, autorização formal e acompanhamento do município são importantes para dar segurança às comunidades envolvidas.

Também é necessário considerar as características de cada bairro. A composição do grupo, o tamanho da área, a oferta de água, o tipo de solo e o perfil das famílias determinam o que pode ser plantado e como a produção será distribuída. Modelos que funcionam em uma cidade não necessariamente podem ser reproduzidos da mesma forma em outro local.

A experiência paranaense indica que o fortalecimento das hortas depende da combinação entre organização comunitária e apoio técnico. Quando os moradores participam das decisões e recebem orientação para o cultivo, aumentam as chances de o projeto se manter ao longo do tempo.

Uma relação mais próxima com a cidade

As hortas comunitárias no Paraná mostram que a agricultura urbana pode cumprir funções simultâneas. Ela produz alimentos, ocupa espaços sem uso, melhora a paisagem e cria oportunidades de convivência. Também pode gerar renda complementar e estimular práticas de cuidado com o ambiente.

O resultado não está apenas na quantidade colhida. Está na formação de redes de apoio, na troca de conhecimentos e na transformação de um terreno subutilizado em um espaço de uso coletivo. Para os moradores, cuidar da horta significa também cuidar do entorno e construir uma relação mais próxima com a cidade.

Com políticas públicas, assistência técnica e participação social, os canteiros podem se consolidar como pontos de encontro entre pessoas e natureza. No Paraná, as experiências existentes mostram que o cultivo compartilhado é uma alternativa para promover segurança alimentar, educação ambiental e integração comunitária dentro dos próprios bairros.

Fontes consultadas: Governo do Paraná, Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, Conexão Ambiental e Prefeitura de Londrina.