sábado, 24 de outubro de 2026
MANCHETES

Araucárias ajudam a formar uma das paisagens mais características do Paraná

As araucárias estão entre os elementos mais marcantes da paisagem do Paraná. Conheça a importância ecológica, histórica e cultural do pinheiro-do-paraná e os desafios para conservar a espécie.

As araucárias estão entre os elementos mais reconhecíveis da paisagem do Paraná. Com troncos altos, copas que se abrem em formato de candelabro e presença marcante nos planaltos, essas árvores ajudam a definir a identidade visual de amplas áreas do Estado. Conhecida cientificamente como Araucaria angustifolia, a espécie também recebe os nomes de pinheiro-do-paraná e pinheiro-brasileiro.

Mais do que uma árvore isolada, a araucária é o principal componente da Floresta Ombrófila Mista, formação vegetal frequentemente chamada de Mata de Araucárias. Esse tipo de floresta integra o bioma Mata Atlântica e reúne diferentes espécies de árvores, arbustos, epífitas, aves e mamíferos. No Paraná, a formação aparece associada a campos naturais, rios, áreas de altitude e diferentes tipos de relevo, criando um mosaico de paisagens característico da região Sul. (iat.pr.gov.br)

Uma árvore que se tornou símbolo do Paraná

A relação entre as araucárias e o Paraná ultrapassa a dimensão ambiental. A espécie está presente em símbolos, nomes de municípios, paisagens urbanas, manifestações culturais e atividades econômicas tradicionais. Seu formato singular também se tornou uma referência visual para representar o Estado, especialmente nas áreas de clima mais frio e nas regiões de planalto.

A araucária foi declarada árvore-símbolo do Paraná e ocupa posição central em iniciativas públicas de educação ambiental e restauração florestal. O Instituto Água e Terra destaca que o pinheiro-do-paraná é uma espécie nativa da Mata Atlântica e caracteriza a fisionomia da Floresta Ombrófila Mista, funcionando como um dos principais elementos paisagísticos e culturais do Estado. (iat.pr.gov.br)

Essa presença simbólica também se relaciona ao modo como a população reconhece a árvore no cotidiano. Em muitas cidades paranaenses, exemplares antigos permanecem em praças, propriedades rurais, parques e áreas de proteção. Em Curitiba, por exemplo, remanescentes de vegetação associados à Floresta Ombrófila Mista podem ser observados em unidades de conservação municipais, como o Bosque Capão da Imbuia. (curitiba.pr.gov.br)

O papel da araucária na formação da paisagem

A Floresta Ombrófila Mista é marcada pela presença da araucária no estrato superior da vegetação. Isso significa que as árvores adultas se destacam acima da copa de outras espécies, formando uma paisagem vertical facilmente identificável. Abaixo delas, crescem árvores de menor porte, arbustos, samambaias, bromélias, cipós e outras plantas adaptadas às condições de umidade e temperatura da região.

Entre as espécies associadas a esse ambiente estão a imbuia, diferentes tipos de canelas, erva-mate, bracatinga, cedros, mirtáceas e outras árvores nativas. A composição varia conforme o solo, a altitude, a disponibilidade de água e o grau de conservação de cada fragmento. Por isso, a Mata de Araucárias não é formada apenas por pinheiros, mas por uma comunidade florestal diversificada.

Nos Campos Gerais, a presença de araucárias se combina com campos naturais, matas de galeria, afloramentos rochosos e vales. O resultado é um cenário de transição entre áreas abertas e formações florestais. Estudos e documentos técnicos do Paraná descrevem essa região como um mosaico de campos e floresta, no qual as araucárias ocupam posição de destaque no conjunto da paisagem. (iat.pr.gov.br)

Clima, altitude e ocorrência natural

A distribuição da araucária está relacionada principalmente às condições climáticas do Sul do Brasil. A espécie ocorre em ambientes de temperaturas mais amenas, com chuvas distribuídas ao longo do ano e ocorrência de geadas. No Paraná, sua presença é mais associada aos planaltos e a áreas de maior altitude, embora também existam registros em ambientes próximos a rios e em zonas de transição entre diferentes formações vegetais.

O relevo e o clima ajudam a explicar por que a araucária se tornou tão característica do território paranaense. Em áreas elevadas, os invernos mais frios e a umidade favorecem a formação de florestas com estrutura própria. Em regiões de campos, a árvore aparece muitas vezes em grupos, bordas de mata ou junto a cursos d’água, compondo uma paisagem em que a floresta e as áreas abertas se alternam.

Essa distribuição, no entanto, não é fixa. Mudanças no uso do solo, fragmentação dos remanescentes e alterações climáticas podem reduzir as áreas adequadas para a regeneração da espécie. A literatura técnica aponta que a Floresta Ombrófila Mista sofreu forte redução ao longo do tempo e hoje permanece principalmente em fragmentos espalhados pela região Sul. (gov.br)

O pinhão e as relações com a fauna

O pinhão, semente produzida pela araucária, é um dos elementos mais conhecidos associados à espécie. Além de fazer parte da alimentação de comunidades rurais e urbanas, ele serve de alimento para diferentes animais. A dispersão das sementes ajuda a explicar a capacidade de regeneração da floresta e estabelece relações entre a árvore e a fauna.

Durante o período de produção, aves e mamíferos consomem ou transportam os pinhões. Ao deslocarem as sementes, esses animais podem contribuir para que novas araucárias surjam em locais diferentes da árvore-mãe. A dinâmica depende das condições do ambiente, da presença de indivíduos adultos, da disponibilidade de fauna dispersora e da proteção das áreas onde ocorre a regeneração.

O pinhão também possui importância cultural e econômica. Ele aparece em receitas tradicionais, festas, feiras e atividades de comercialização em municípios do Paraná e de outros Estados do Sul. Essa utilização aproxima a população da espécie, mas também reforça a necessidade de conciliar o aproveitamento do produto com a proteção das árvores e a manutenção da floresta.

Uma espécie sob pressão

Apesar de sua força simbólica, a araucária é uma espécie ameaçada de extinção. A exploração histórica da madeira, a conversão de florestas para agricultura e pecuária, a expansão urbana e a fragmentação dos habitats reduziram a cobertura original da Mata de Araucárias. Em muitos locais, os remanescentes estão isolados, o que dificulta a troca genética e a continuidade dos processos ecológicos.

A fragmentação também altera o ambiente no entorno dos remanescentes. Áreas pequenas ficam mais expostas à entrada de espécies invasoras, à incidência de ventos, à mudança de umidade e à pressão causada por atividades vizinhas. Mesmo quando algumas araucárias adultas permanecem, a floresta pode perder capacidade de se renovar caso não existam árvores jovens, sementes e condições adequadas para o crescimento.

Outro desafio está relacionado às mudanças climáticas. A elevação das temperaturas e alterações no regime de chuvas podem modificar as condições necessárias para a germinação e o desenvolvimento das mudas. Pesquisas citadas em documentos técnicos apontam que a fragmentação da paisagem e o aquecimento global tendem a restringir a distribuição da espécie, tornando o planejamento de conservação ainda mais importante. (gov.br)

Conservação depende de áreas conectadas

A proteção da araucária não se resume ao plantio de mudas. A espécie precisa de áreas adequadas, solo protegido, disponibilidade de água, presença de outras plantas e espaço suficiente para completar seu ciclo. Por isso, a conservação dos remanescentes existentes e a recuperação de áreas degradadas são medidas complementares.

O Instituto Água e Terra recomenda que o plantio seja realizado, preferencialmente, em áreas que já tenham fragmentos florestais. A orientação considera as exigências da espécie e busca enriquecer florestas existentes, em vez de substituir ecossistemas naturais por plantios isolados. Em uma ação registrada pelo órgão, mudas de araucária foram utilizadas para ampliar a diversidade de fragmentos da Floresta Ombrófila Mista. (iat.pr.gov.br)

A criação e a manutenção de unidades de conservação também são fundamentais. Levantamentos do Estado indicam que a Floresta Ombrófila Mista reúne parte importante dos remanescentes florestais do Paraná, mas ainda enfrenta pressão de desmatamento e baixa proteção integral em determinadas áreas. A formação de corredores ecológicos pode ajudar a conectar fragmentos e favorecer o deslocamento de animais e a dispersão de sementes. (iat.pr.gov.br)

Plantio e restauração florestal

Programas de restauração ambiental têm buscado ampliar a presença de espécies nativas no Paraná. Entre janeiro de 2019 e junho de 2026, o Instituto Água e Terra informou ter distribuído 668.286 mudas de araucária por meio do programa Paraná Mais Verde. A iniciativa envolve viveiros florestais, ações de educação ambiental e participação de municípios e instituições parceiras. (iat.pr.gov.br)

O plantio, porém, precisa ser acompanhado por cuidados de longo prazo. A sobrevivência das mudas depende da escolha do local, da proteção contra fogo e pisoteio, do controle de espécies concorrentes e do acompanhamento do crescimento. Também é necessário preservar árvores adultas, que produzem sementes e ajudam a manter a estrutura da floresta.

Em propriedades rurais, a conservação pode ser integrada ao planejamento do uso do solo. Áreas de preservação permanente, reservas legais, margens de rios e fragmentos de mata podem funcionar como pontos de conexão. A adoção de práticas que evitem novos desmatamentos e reduzam a pressão sobre os remanescentes contribui para manter a paisagem e os serviços ambientais associados à floresta.

Patrimônio natural e responsabilidade coletiva

As araucárias ajudam a definir o Paraná porque combinam presença ecológica, valor cultural e reconhecimento social. A silhueta das árvores aparece nas paisagens rurais, nos parques urbanos, nas áreas de serra e nos campos do interior. O pinhão aproxima a espécie da alimentação e das tradições regionais, enquanto a floresta oferece abrigo e alimento para a fauna, protege o solo e contribui para a regulação da água.

Conservar essa paisagem exige mais do que manter árvores isoladas. É preciso proteger os remanescentes, estimular a regeneração natural, recuperar áreas degradadas e preservar a diversidade da Floresta Ombrófila Mista. Quando uma araucária adulta permanece em pé, ela não representa apenas uma árvore de grande porte, mas parte de uma rede ecológica que envolve o solo, a água, a fauna e outras plantas.

Por isso, o futuro das araucárias no Paraná depende da combinação entre conhecimento científico, políticas públicas, fiscalização, restauração e participação da sociedade. A paisagem que hoje identifica o Estado só continuará existindo se as novas gerações encontrarem não apenas exemplares antigos, mas florestas capazes de se renovar.